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Um museu contra o preconceito
O índio brasileiro como é na realidade
Darcy Ribeiro
(...) o que se impunha era criar um museu voltado mais
para a compreensão humana que para a erudição. Tal é o Museu do
Índio, inaugurado há três anos no Rio de Janeiro pelo
Serviço de Proteção aos Índios (v. nota abaixo).
O Museu do Índio está instalado num velho casarão na
rua Mata Machado, readaptado internamente segundo o projeto de Aldary
Toledo, um dos mais destacados arquitetos brasileiros. Além das
salas de exposição, há um salão de projeção de filmes que funciona
também como auditório para música indígens, laboratórios
cinematográficos e uma biblioteca especializada.
O museu funciona com exposições temáticas que se
renovam cada ano a 19 de abril, Dia do Índio Americano, com novas
coleções de artefatos, fotos e filmes de documentação, organizadas
para ilustrar temas gerais, como a presença da beleza na vida indígena,
as fronteiras onde os índios se defrontam hoje pela primeira vez com
representantes da civilização. Um programa assim intenso só se
tornou possível porque o Museu ao inaugura-se já contava com magnífica
documentação etnográfica reunida em dez anos de contínuas pesquisas no
interior do país pela Seção de Estudos do Serviço de Proteção aos
Índios. Este acervo corresponde hoje a milhares de artefatos
indígenas, cerca de 30.000 fotografias, 400 gravações de músicas e
línguas indígenas e muitos filmes. Estas coleções, bem
como a Biblioteca General Rondon, especializada em etnologia brasileira,
estão abertas aos estudiosos para pesquisas mais aprofundadas.
À entrada do museu o visitante depara com mapas,
gráficos e painéis que mostram a proporção dos índios na população
brasileira e sua enorma variedade de línguas e costumes. Aí o
explicador eclarece que a expressão genérica "índio" tem
muito pouco conteúdo, pois muitas tribos diferem tanto umas das outras
como os chineses dos brasileiros. Nesta ocasião se indica, também,
que o mais saliente traço comum destes povos decorre do fato de que todos
tiveram de enfrentar os invasores europeus, defender seus territórios,
suas vidas e suas famílias da fúria da perseguição.
Nas salas seguintes, vitrines e mostruários diversos dão
ensejo a novos esclarecimentos. Assim, diante de um conjunto de
objetos de uso doméstico como peneiras, raladores e bancos, o explicador
chama atenção para o virtusismo técnico com que foram executados.
Toma uma peça qualquer e faz ver como foi muito mais elaborada do que o
necessário para cumprir sua finalidade. Deste modo, insensivelmente,
o visitante compreende que há na vida indígena lugar para preocupações
estéticas, e num banco, numa cesta de carregar raízes ou numa estaca de
cavar, vê-se a criação artística e evidencia-se a procura da beleza.
Ante um mostruário de machados de pedra, o explicador se
detém para dizer que a maioria dos índios brasileiros baseia sua
alimentação na mandioca e no milho, o que exige a abertura de grandes
clareiras na mata para plantar. Comenta o trabalho exaustivo dessas
tarefas com instrumental tão precário, prova de serem errôneos os
estereótipos referentes à preguiça indígena. É a oportunidade
para mostrar que esta idéia se formou na observação de índios
retirados de suas aldeias e compelidos a realizarem tarefas para as quais
não estavam emocionalmente motivados. O explicador sugere que se
inverta a situação e o visitante se imagine numa aldeia indígena e
pense no conceito que dele fariam os índios ao ver sua incapacidade para
seguir os costumes tribais e sua "preguiça" em fazer coisas que
só tem significação...para os pássaros necessários
à confecção de um adorno de plumas indispensável em certa cerimônia
tribal.
Os elementos de cultura indígena são apresentados,
sempre que praticável, em seus contextos funcionais e associados com
projeções de diapositivos em cores. Deste modo, objetos que só
causariam estranheza, se isolados, podem ser compreendidos em seu
verdadeiro sentido de solução freqüentemente feliz para a adaptação
à floresta tropical ou aos campos áridos. (...) Cada
exposição é planejada tendo em vista uma apresentação atraente.
Sobretudo, as explicações, repetidas aos visitantes na forma de
historietas e comentários aparentemente despretensiosos, dirigem-se
sempre para desmoralizar preconceitos e suscitar simpatias pelas
dramáticas dificuldades dos índios no mundo estranho que levamos cada
vez mais perto de suas aldeias, e seus comoventes esforços para resolver,
a seu modo, os problemas essenciais de todas as sociedades. Nota: O Museu do
Índio, criado em 1951,
foi transferido para a Rua das Palmeiras, no Rio de Janeiro.
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