|
Introdução
A universidade brasileira viveu três idades ao longo de sua breve história. Na
primeira, meramente nominal, estava segmentada em faculdades autárquicas de
Direito, Medicina e Engenharia, que se desconheciam umas às
outras, mantendo o isolamento das antigas escolas. Algumas delas, graças ao antigo sistema de concurso de cátedra, alcançaram certo nível de excelência na formação de
profissionais. Eram incapazes, porém, de alcançar o domínio das ciências, que nelas só entravam
adjetivadas, profissionalizantes.
Vem, a seguir, a universidade filosófica, em que as grandes escolas autônomas continuam sua vida
isolada, mas se enriquece o conjunto com a Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras. Esta, embora criada com vocação integrativa, não conseguiu dar organicidade à
universidade, constituiu-se apenas como uma nova faculdade. Permitiu, porém, algum progresso no domínio das ciências básicas. Fracassou feio na sua função
verdadeira, jamais levada a sério, de formar e aperfeiçoar o professorado das escolas de nível médio. Melhorou
substancialmente, todavia, a qualidade do professorado brasileiro.
A terceira idade corresponde à
estruturação da Universidade de Brasília, com o seu sistema triplo de
Institutos Centrais, Faculdades Profissionais e Órgãos Complementares.
Os Institutos davam tanto cursos preparatórios para as faculdades, como
se dedicavam à pesquisa e ao ensino em nível de pós-graduação, cada
qual no seu campo de saber. As Faculdades recebiam alunos no nível de
terceira série, para lhes dar capacitação profissional através de práticas
educativas. Os Órgãos Complementares cuidavam da Biblioteca Central e
da Editora.
A UnB teve, aparentemente, um imenso êxito, porque
seu sistema foi generalizado pela ditadura, através de decreto, para
todo o país. Na realidade, isto constituiu um engodo. Enquanto, para nós,
a constituição de verdadeiros Institutos Centrais, capazes de
proporcionar programas de pós-graduação de nível internacional,
representaria um esforço continuado de uma década para que eles
amadurecessem, os criados em todas as universidades públicas, por
decreto, se tornaram um mero simulacro. Apenas reuniram os professores
de cada disciplina e os designaram como instituto disso ou daquilo.
A UnB, por sua vez, assaltada pela ditadura, perdeu
todos os professores capazes de levar adiante seus propósitos. O pior
é que, submetida à ditadura burocrática do Ministério da Educação
e à sua mania de uniformidade e isonomia, se converteu numa
universidade federal a mais, perdendo o caráter autônomo e
experimental que a lei lhe dera. Desde então, a duras penas, tenta
recuperar-se, para cumprir sua função de centro cultural e científico
da nova capital, devotado ao domínio do saber moderno, colocando-o a
serviço do diagnóstico das causas do atraso do Brasil e da busca de
soluções para os nossos problemas.
Vistas, tal qual são hoje em dia, nossas
universidades, públicas e privadas, não correspondem à concretização
de um projeto próprio e lúcido de organização universitária. São,
antes, o resultado residual de múltiplas decisões isoladas e anárquicas
referentes a interesses corporativos ou particularistas.
Assim é que estamos desafiados, agora, a inventar as
universidades da quarta idade, em que a pesquisa, o ensino e a
experimentação se integrem no estudo dos temas e problemas mais
relevantes para o desenvolvimento do Brasil. Os esforços mais bem
sucedidos para criar verdadeiras universidades entre nós se
cristalizaram na Universidade de São Paulo, na Universidade de Campinas
e, parcialmente, na Universidade Federal de São Carlos, que alcançaram
nível de excelência em vários campos do saber e que realizam sérios
programas de pós-graduação. O mesmo se pode dizer da Universidade
Federal do Rio de Janeiro e de algumas universidades privadas, de alto
padrão, como a Universidade Católica do Rio e a Metodista de
Piracicaba. Igual destaque merece o Instituto Tecnológico da Aeronáutica
de São José dos Campos. Todos contam com numerosos pesquisadores
altamente competentes, que realizam um bom trabalho nos seus respectivos
campos, principalmente no nível de pós-graduação.
O certo, porém, é que a maioria de nossas
universidades jamais alcançou o nível de proficiência e de integração
propriamente universitária a que têm direito de aspirar. Funcionam, de
fato, como um conglomerado de escolas autárquicas, divididas em falsos
departamentos, nos quais a burocracia fez perder o sentido dos desígnios
acadêmicos e uma onda de assembleísmo lhes perturba todas as funções
ao entregar o poder de constituição de órgãos de governo aos
estudantes e funcionários.
O mais grave, porém, é que não foram as
universidades que generalizaram o ensino superior no Brasil. Foram
escolas isoladas, de caráter privado, organizadas com vistas aos lucros.
A imensa maioria do alunado de terceiro nível do Brasil – na verdade,
dois terços deles – se encontra nessas escolas, em que, de modo geral,
o professor simula ensinar e o aluno finge aprender. Criou-se assim um
conluio irresponsável, em que já não se exige freqüência e, o que
é mais grave, já não se reprova nos exames. Quebrou-se, desse modo, a
estrutura fundamental dos sistemas de ensino e aprendizado, convertendo
os diplomas em meros títulos honoríficos, que não correspondem a
qualquer nível de saber e proficiência. Não faltam vagas para o
ensino deste padrão, elas até sobram. A oferta de matrículas excede
à procura, porque a própria juventude começa a desconfiar dessa forma
de educação, que visivelmente não qualifica ninguém para nada.
É com base nessa compreensão do que é e do que
deve ser a universidade, que concebemos a Universidade Estadual Norte
Fluminense como uma UNIVERSIDADE DO TERCEIRO MILÊNIO. Vale dizer, uma
instituição acadêmica plenamente consciente de que seus alunos já irão
operar depois do ano 2000. No corpo da Civilização Emergente, cujas
características mal podemos imaginar.
Um traço distintivo dessa Civilização é,
entretanto, definível. É o de que seu humanismo não será apenas o
cultivo das letras e da filosofia clássica. Será, isto sim, o novo
humanismo fundado nas ciências básicas, nas tecnologias delas
decorrentes e em novas questões sobre a vida e sobre o homem que elas
estão suscitando.
Nossa UNIVERSIDADE DO TERCEIRO MILÊNIO não terá
como paradigma a velha OXFORD ou a vetusta SORBONNE, mas o MASSACHUSETTS
INSTITUTE OF TECHNOLOGY – MIT e o CALIFORNIA INSTITUTE OF TECHNOLOGY
– CALTECH. Um e outro muito empenhados no cultivo das humanidades clássicas,
mas voltados essencialmente para operar nas fronteiras do saber científico
e tecnológico.
O Plano Orientador
O imperativo básico que enfrentamos é o de definir
a correspondência desejável entre a civilização emergente e a
universidade necessária. Há pouca dúvida de que, mais do que em
outros tempos, a linguagem da nova civilização é a da ciência e suas
aplicações tecnológicas. Do seu domínio, no mais alto nível, do seu
cultivo, aplicação e de sua difusão, depende a sobrevivência de cada
sociedade e nação. As que se atrasarem nesse campo correm o risco não
só de se verem avassaladas, mas de desaparecerem. Nessas circunstâncias
é que se impõe a uma nova universidade o objetivo primacial de alcançar
o pleno e inteiro domínio das ciências e das tecnologias dela
decorrentes, com uma clara noção de problemas que faça do saber um
instrumento de diagnóstico das causas do atraso e um fator de aceleração
da história.
O governador Leonel Brizola apoiou imediatamente
nossa recusa à idéia de fazer da Universidade Estadual Norte
Fluminense apenas mais uma universidade regional, destinada a formar os
tipos de profissionais de nível superior que o funcionamento da
sociedade local requer. Se fosse esse o seu propósito não se teria que
criar nada, uma vez que em Campos existe já uma dezena de cursos
superiores, atendendo perto de 3000 alunos, com ajuda de 300 professores,
que cumprem razoavelmente - e, às vezes, até muito bem- essa função,
como ocorre com o ensino médico e o de odontologia. Se essa fosse a opção,
bastaria instituir uma reitoria para propor o orçamento, realizar
vestibulares e atos solenes de formatura.
O mais extraordinário na aventura de inventar e
instituir a UENF é o apoio que ela recebeu da elite cultural de Campos
e, inclusive, dos líderes das faculdades existentes. Em lugar dos ciúmes
competitivos e dos interesses corporativos, o que surgiu e se impôs foi
o espírito de colaboração, com base na compreensão profunda de que o
melhor para Campos é criar-se ali uma verdadeira universidade moderna,
capaz de funcionar como alavanca de desenvolvimento regional e nacional.
A universidade cuja ambição maior é dar ao Rio de
Janeiro aquilo que, por exemplo, a Universidade de Campinas deu a São
Paulo. Uma universidade moderna, que atualize o Brasil nos principais
campos do saber e que aqui implante laboratórios e centros de pesquisa,
nos quais as tecnologias mais avançadas possam ser praticadas
fecundantemente, ensinadas eficazmente e aplicadas utilmente. Uma
UNIVERSIDADE DO TERCEIRO MILÊNIO.
Com efeito, menos de uma década nos separa do ano
2000. A maioria dos brasileiros estará viva no dia da passagem do
segundo para o terceiro milênio, os alunos matriculados hoje nas
universidades, nele é que trabalharão. Mas é de se perguntar se o
Brasil de hoje, o povo brasileiro, a cultura brasileira e, inclusive, a
cultura acadêmica cultivada nas universidades, estão prontos e maduros
para esse trânsito. A Civilização Emergente, como já disse, tem como
marca distintiva a de que se fundará nas ciências básicas e nas práticas
tecnológicas que estão se gestando em nossos dias. Seu domínio,
cultivo e ensino são condições essenciais para que não nos atrasemos,
uma vez mais, na história.
Esse é o principal desafio colocado para as
universidades brasileiras. Notoriamente, a maior parte delas mal pode
cumprir o papel das antigas universidades produtoras de profissionais.
Poucas têm institutos trabalhando na fronteira do saber, com a mente
posta na cultura científica da futura civilização. Mesmo estas operam
com extrema dificuldade. Seja porque cultuam mais a pesquisa luminífera
que a frutífera, desinteressadas pelas aplicações tecnológicas do
saber. Seja porque pesam sobre elas a rotina acadêmica mediocrizante, o
corporativismo estudantil e burocrático, os interesses setoriais e os
direitos adquiridos, que opõem resistência a qualquer mudança .
Por conseguinte, não cabe reiterar na nova
universidade os modelos de universidades que temos, mas partir para a
experimentação, visando a criar um modelo novo. Nestas circunstâncias,
nada seria mais recomendável e proveitoso do que acatar o desafio de
criar no Estado do Rio de Janeiro uma Universidade do Terceiro Milênio,
que vá se construindo a si mesma, passo a passo, com o propósito de
dominar os campos do saber de maior interesse estratégico para o
desenvolvimento social e cultural autônomo do Brasil.
|
|