Desafios

(...) A proposta me veio num telefonema do governador Orestes Quércia, de São Paulo.  Por recomendação de Oscar Niemeyer, ele pedia minha colaboração paa projetar e implantar o Memorial da América Latina.  Fui ter com o Oscar.  Ele, em três dias, já havia projetado as linhas básicas do memorial, que viria a ser a sua obra mais madura.  Esplêndida.  Engajei-me no projeto e passei a viver entre o Rio e São Paulo, para ver e ajudar a nascer o memorial.  Viajei também, servindo a esse projeto, ao México, à Guatemala e ao Peru, onde comprei as maiores e mais belas coleções de artefatos que jamais saíram daqueles países.  Eles são exibidos hoje no Centro de Criatividade Popular, que constitui um dos museus mais visitados de São Paulo, que tem tantos museus fantásticos.  Isso porque a beleza da criatividade dos povos americanos, oriundos das altas civilizações, e não só belíssima, mas imediatamente comunicável.  Em outras viagens, pelos mesmos lugares e também Argentina, fui para compor uma biblioteca representativa do que se pode ler de melhor sobre a sua história e sua cultura.  Fiz gravar também, para o memorial, amostra representativa de suas músicas eruditas e populares.  Tudo isso está lá para ser visto.

Mas o memorial era muito mais ambicioso.  Nós o concebemos como uma universidade sem alunos e sem professores, porque seus mestres seriam os acadêmicos mais competentes de toda a América, que lá se sucederiam dando cursos sobre suas obras, em seminários mensais de balanço crítico do estado do desenvolvimento de cada canto de saber.  Há muita coisa à espera de concretização.

O melhor, porém, foi um invento paulista de que não participei.  A edificação, dentro do memorial, da sede do Parlamento Latino-Americano.  Em lugar de suas reuniões se sucederem nos vários países, se fazem ali em datas fixas.  O parlamento ainda é composto por deputados eleitos proporcionalmente nos diversos parlamentos dos países da região.  É de se supor, porém, que acabará sendo composto por eleição direta, com poder de legislar sobre alfândega e relações do comércio internacional.  Então amadurecerá, tal como amadureceu em quarenta anos a sede do Parlamento Europeu, que está engedrando a União Européia como nação.  Coisa impensável há dez anos, quando não se supunha que alemães, ingleses, franceses e italianos pudessem compor uma nação unida.

O Parlamento Latino-Americano terá a mesma função, de estruturar a futura nação latino-americana sonhada por Bolívar.  Nossa identidade cultural, lingüística e até étnica é muito mais profunda, o que fará de São Paulo e do seu memorial, amanhã, a capital da nação latino-americana.

(Darcy Ribeiro, Confissões)