Ideologias

Jango cuidou durante anos de preparar os trabalhistas para o co-exercício do poder, convertendo dirigentes sindicais e quadros da esquerda em próceres do quadro político no estilo do Partido Trabalhista Britânico, com seu poderio assentado nos sindicatos, dando voz aos assalariados nas decisões políticas nacionais.

Era isso precisamente o que a direita temia ao denunciar os riscos fatais de uma república sindical.  Nada havia de mais natural para eles do que o exercício do poder pelo patronato fazendeiro atrasadíssimo, ou pelo patronato urbano, cheio de ódio classista.

(...) Essa polarização foi muito bem compreendida por alguns líderes mais lúcidos do Brasil.  Assim foi com San Tiago Dantas, (...) com Hermes Lima, Wilson Fadul, João Mangabeira, Gabriel Passos e Domingos Velasco, que transcenderam do seu socialismo utópico para o trabalhismo dinâmico sob a liderança de Jango.

Foi também essa corrente que eu me integrei, confiante em que era a única capaz de realizar as potencialidades brasileiras, promovendo as profundas reformas estruturais indispensáveis para que o Brasil desse certo.  O Partido Comunista, único que operava competitivamente nas áreas populares, depois de um momento de glória ensejado pelo prestismo do pós-guerra, fora jogado na clandestinidade.  Caíra, ele próprio, numa decadência que só lhe permitia uma existência conspirativa que se efetivava clandestinamente através de sindicatos janguistas e do PTB.

Nesse espaço é que cresceram, por sua ação política paralela à de Jango, Demistóclides Batista, ferrovoário; Osvaldo Pacheco, portuário; e Roberto Morena, que se apresentava como marceneiro.  Na verdade, era tão marceneiro, quanto fora criança.

(...) Essa aliança fecunda com os trabalhistas não permitiu nunca que os comunistas identificassem no trabalhismo de Jango a via pacífica que eles pregavam.  (...) Tratava-se de levar à frente um governo socialmente responsável ante as populações pobres da cidade e do campo.  Um governo orientado para o capitalismo de Estado, capaz de fortalecer as grandes empresas públicas como a Petrobrás, a Vale, CSN, o Banco do Brasil e de criar novas empresas públicas, como a Eletrobrás e a Embratel.  Um governo predisposto a realizar a reforma urbana, que garantisse aos trabalhadores pobres a propriedade da sua moradia, chamando ao poder público as relações com os proprietários da terra que ocupavam.

Essas eram as questões substantivas.  As adjetivas, também importantes, eram inumeráveis, como a reforma fiscal, a reforma administrativa, a reforma eleitoral, a reforma universitária, além de uma nova prática política que contivesse a inflação e controlasse os movimentos grevistas.  Esse complexo de diretrizes de governo apontava para um socialismo evolutivo, oposto ao revolucionário, que eu formularia depois, já no exílio.

(...) diante da esquerda ambígua e militares renitentes, a implantação de um governo de reformas passa a constituir uma via arriscada, não só pelas ações subversivas da direita golpista, mas também pelo receio de que, no curso de uma ação revolucionária, o poder escapasse das mãos do presidente para cais nas de Brizola ou de uma conjunção das esquerdas.  Nunca houve risco concreto de que sobreviria essa situação dramática, mas isso estava na linha das possibilidades.

Darcy Ribeiro, Confissões