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Um Homem de Esquerda
(...) Não pense o leitor, pelo que digo aqui, que eu não goste das
esquerdas. Muito ao contrário. Sou de esquerda e acho que
ela é a salvação do mundo. Fora da esquerda só há
indiferença, que é imbecil demais, ou a direita, que é sagaz demais.
Eu as critico criticando a nós, sangrando em minha carne, porque isso
é indispensável para que a esquerda cumpra sua missão,
extraordinariamente difícil. Tão difícil que, ao longo da
História, só temos conhecido derrotas. Estamos desafiados a um
esforço de auto-superação para, afinal, vencer a reação.
Existe uma intelectualidade vadia pregando que a direita é burra.
Não é, não. Inclusive porque a maioria dos intelectuais com boa
formação acadêmica está a serviço dela e é para isso subsidiada,
quando não é direitista vocacional ou herdeira.
Tudo isso é tanto mais grave porque a direita tem em suas mãos e
controla estritamente toda a mídia. Através dela, faz a cabeça
de quase toda a classe média influente, convencida, pelo bombardeio
diário dos jornais, das rádios e das televisões, que o mundo inteiro
se está globalizando alegremente, e em benefício dos pobres. De
que, se os ricos enriquecerem muito mais, distribuirão suas riquezaz
com os pobres. De que a privatização é o caminho do progresso,
mesmo quando se faz pela doação de bens públicos. De que os
estrangeiros, ou os brasileiros com eles irmanados, são sempre melhores
que os nativos. A pregação uníssona desse discurso torna-o cada
vez mais verossímil, levando muita gente a embarcar nas canoas do
neoliberalismo, da globalização e da privatização.
(Darcy Ribeiro, Confissões)
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