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o PTB, o PSD e a UDN
(...) Como ministro do Trabalho, Jango combinou com Getúlio dobrar o
salário-mínimo, que ficara congelado durante todo o mandato de Dutra. Assim
que o decreto foi divulgado, levantou-se contra o presidente a maior
oposição, sobretudo por parte dos militares, liderados por Golbery e
Mamede, coronéis que lançaram um manifesto apoiado por manifestações
de tropa contra o aumento salarial que não os afetava, mas os ofendia.
Nascem assim, nesse quadro, duas personalidades da história recente do
Brasil. De um lado Jango, encarnando a política trabalhista e
nacionalista de Getúlio, e dou outro Golbery, o reacionarismo mais
tacanho, com fumaças geopolíticasque pressionam seus companheiros de
tropa. Getúlio teve que voltar atrás com o decreto, exonerar
Jango e organizar, primeiro, um dispositivo militar que lhe permitisse
retomar a questão. Isso foi feito e, a seu tempo, o
salário-mínimo foi dobrado e Jango voltou ao Ministário do Trabalho. Amadurecem
assim duas figuras opostas. Jango cresce como líder trabalhista
que sucederia a Vargas na orientação do trabalhismo. Golbery
vira profiteur da UDN, que articula a operação udenista que
levaria Getúlio ao suicídio. Engole, depois, obrigado, a
eleição de JK. Mais tarde, se fez militante do golpe que
derrubou Jango e se investe no uniforme de eminência parda dos
militares postos na Presidência. O João Goulart que assume a
Presidência em 1961 era um político experimentado na arena política.
Teria uma carreira brilhante e tranqüila se se comportasse como os
políticos de sua classe. Ele era diferente, porém, por sua
adesão, herdada de Getúlio, mas muito mais profunda, à classe
trabalhadora, cujos interesses defendia com a mesma gana com que o PSD e
a UDN defendiam as classes empresariais. (...) Jango queria garantir o
direito de greve e empreender a sindicalização dos trabalhadores
rurais. Pretendia também promover uma reforma agrária que desse
um quinhão de terra a milhões de famílias desalojadas do campo pelos
latifundiários. Esperava ainda reformar o sistema fiscal, para
não pesar tanto sobre os assalariados, e redistribuir as rendas
públicas em favor dos estados. Queria ainda congelar os aluguéis,
reformar a educação, o sistema bancário, a administração pública,
a previdência social e o sistema partidário. Sabendo que essa era
sua índole, as classe dominantes levantaram contra ele a maior
oposição que eram capazes de mover. Já no começo de sua
carreira, quando Jango, como ministro do Trabalho, quis dobrar o
salário-mínimo, levantou-se a maior grita. Depois quiseram
obstar a candidatura de Jango a vice-presidente de JK. Não
conseguiram, porque ele já era, visivelmente, o grande eleitor do
Brasil, sem cujo apoio o PSD não alcançaria a Presidência. Por
fim vetaram, após a renúncia de Jânio, que Jango assimisse a
presidência. Só consentiram ao ver que teriam que enfrentar uma
guerra cruenta comandada por Brizola. Preferiram a manobra
parlamentar de cortar-lhe os poderes, implantando o parlamentarismo. Todo
o ódio que as classes dominantes sempre tiveram a Getúlio Vargas por
sua política trabalhista se derramou contra João Goulart como seu
sucessor. Só Brizola foi mais atacado do que Jango por toda a
mídia e através dos procedimentos mais sujos. Lacerda chegou a
falsificar uma carta que um suposto deputado argentino teria escrito a
Jango, cujo desmentido, alcançado na Justiça, custou enorme esforço.
Seu objetivo era incompatibilizar Jango com a oficialidade, como um
perigoso conspirado da fronteira sobre a qual eles estavam sempre
atentos, que era a Argentina. Esses ataques subiram em escalada,
chegando afinal até o planejamento de seu assassinato. Com efeito,
o Exército, numa vistoria das imediações da casa de Jango, em
Jacarepaguá, encontrou enorme armamento ofensivo que, obviamente, se
destinava a um atentado contra ele e sua família. (...) A direita
tinha razão em temer Jango. Sob sua direção, o PTB cresceu de
22 deputados em 1946 para 66 em 1958 e para 116 em 1962. Na
verdade, tinha 136, porque Jango guardava na gaveta cartas de vinte
parlamentares pedindo ingresso no PTB. Já era, pois, o maior
partido do Congresso e o mais capaz de crescer. Um concorrente
perigisíssimo para as eleições presidenciais de 1965. (Darcy
Ribeiro, Confissões)
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