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O Partido Comunista
É de assinalar que os comunistas, inviabilizados pela legislação,
que lhes cortou a legalidade, mas principalmente pela sua linha
política, viviam e atuavam debaixo da sombra do trabalhismo. Mas
sempre o rejeitando como um populismo inconseqüente.
As pequenas esquerdas radicais, trotskistas, católicas e outras,
inspiradas na revolução cubana, não toleravam o governo de João
Goulart. Lutavam pelo socialismo por via direta, sem as etapas
supostas pelos comunistas. Não apoiavam nem sequer a reforma
agrária e as ações parlamentares nacionalistas. Tudo para eles
só fortalecia a ordem vigente, atrasando a revolução. Seu
propósito era derrubar o governo. Buscavam espaço próprio de
pregação e ação, principalmente junto aos estudantes. Seu
radicalismo era tal que a Ação Popular — a AP — chegou a
pressionar Paulo de Tarso, ministro da Educação, para que ele se
demitisse, porque o Governo Jango não era suficientemente esquerdista
para eles. Isso sucedeu em 1963, quando nosso governo estava sendo
derrubado pela direita, porque seu esquerdismo era inaceitável. Um
dos principais grupos radicais era a POLOP, que atuava principalmente em
Brasília, na UnB e no ginásio experimental. Chegaram a envolver-se
no Levante dos Sargentos, mas se assustaram quando o Exército abriu
fogo contra os insurgentes. Sua ação principal era a agitação
dos secundaristas, que faziam grandes badernas nas suas escolas e em
toda parte. Não podiam ser presos, porque na cadeia abriam
gritaria infernal e centenas de outros meninotes e moçoilas gritavam do
lado de fora, pedindo para ser presos. Sua loucura maior se deu na
tarde em que decidiram atacar o governo. Milhares de jovens,
rapazes e moças, invadiram os ministérios, atemorizando os
funcionários e rasgando papéis. A certa hora decidiram invadir o
Congresso Nacional. Pusemos então um cerco de soldados lado a
lado, com ordem de não ferir nenhum estudante, apenas contê-los.
Percebendo isso, os rapazes e as moças entraram de caneladas e de
cusparadas nos soldados. Ordenei uma coça neles, que acabou em
minutos com a anarquia. A dificuldade que as esquerdas têm hoje de
definir um projeto próprio que a população brasileira aceite como seu
caminho decorre, em grande parte, de sua animosidade explícia ou
recôndita contra o nacionalismo oposto às globalizações, e contra o
trabalhismo reformista oposto à irresponsabilidade social do
liberalismo. Sua tarefa histórica é recuperar o que os
trabalhadores perderam com a ditadura militar, como as indenizações
por demissão imotivada e a estabilidade de tipo japonês no emprego.
Há, obviamente, muita coisa mais a formular no novo Projeto Brasil.
Mas temos que partir dessas reivindicações e da defesa do que nos
resta: o imposto sindical, que sustenta nosso amplíssimo sistema
sindical, e a unidade sindical, que se opõe tanto aos sindicatos de
empresas norte-americanas quanto ao socialismo de sacristia dos
italianos, que fraciona os sindicatos — católicos, socialistas,
democratas-cristãos —, inviabilizando a unidade do movimento
operário. A oposição ao imposto sindical e à unidade sindical tem
componentes espúrios, que são os subsídios de organizações
estrangeiras, que se opõem ferozmente a eles, negando-se a dar qualquer
ajuda a quem queira manter essas conquistas operárias, sejam partidos
políticos, sejam confederações sindicais. Esse é um dos
caminhos pelos quais a revolução brasileira se enreda, numa teia
constritora. (...) Os comunistas têm um talento invejável: o de
assenhorear de diretrizes políticas singelas ou de inventar outras, que
eletrizam multidões. Justamente eles, que são tão ideológicos,
tão principistas, só usam esses saberes teóricos para formar seus
quadros. Ao povo o que dão são diretivas simples, como a do
"O petróleo é nosso", que criou a Petrobrás, ou "Getúlio,
pai dos pobres", em que se assentava o velho PTB. Outras
diretrizes agrediam a oposição, com um nome virtuosíssimo. É o
caso de "Brigadeiro, bonitão e solteiro". Outra
invenção no mesmo rumo, eficientíssima, foi "Nós somo
marmiteiro". No momento, estão querendo plantar uma nova
diretriz fantástica: "A terra também é nossa". Essa
técnica de ação política num povo em que analfabeto também vota e o
eleitorado é muito ignorante constitui um achado da maior eficácia.
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