O MULO "Ao contrário do chamado romance social, que exalta humildes mas heróicos lutadores populares, em O mulo eu retrato o nosso povo roceiro, sobretudo os mais sofridos deles, que são os negros, tal como os vi, sempre mais resignados que revoltados. Além da espoliação de sua força de trabalho e de toda sorte de opressões a que são submetidos, nossos caipiras sofrem um roubo maior, que é o de sua consciência. O patronato rural se mete em suas mentes para fazê-los ver a si mesmos como a coisa mais reles que há. (...) Tanto me esmerei na figuração desses contrastes que um pequeno bandido político em luta eleitoral contra mim fez publicar alguns daqueles meus textos de denúncia como se expressassem minha postura frente aos negros.
O mulo foi para mim mais uma ocasião dessas em que não perco de testemunhar o quanto somos um país enfermo de desigualdades." (Darcy Ribeiro, Confissões, S.Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1997, p. 513)