UTOPIA SELVAGEM "Minha terceira novela, Utopia Selvagem, é uma espécie de fábula brincalhona, em que, parodiando textos clássicos e caricaturando posturas ideológicas, retrato o Brasil e a América Latina. (...) O melhor da minha Utopia é um capítulo orwelliano, que desenha o mundo do futuro regido pelas multinacionais. Impagável. Gosto também do último capítulo, escrito para ser filmado por Glauber, sobre a alucinação coletiva de um povo indígena pela força da ayahuasca, que se chama também santo-daime. Nas últimas páginas, a aldeia é uma ilha que sobrevoa o mundo e trava uma guerra contra o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, que atiram com seus canhões sobre ela. A aldeia inteira revida cagando na mão e jogando bosta nos milicos. (...)
"Em Maíra mostro o índio real, de carne e osso e nervos e mente, enredado na sua cultura, como nós na nossa, mas capaz de todos os pensamentos e sentimentos. Na Utopia trato é com índios de papel, tal como Macunaíma. Índios emblemáticos, que servem para discutir temas e teses muito civilizadas, tal como a cristandade e a conversão, o machismo e o feminismo, a vida e a morte, o saber e a erudição, a pátria e o militarismo, o socialismo e a liberdade." (Darcy Ribeiro, Confissões, S.Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1997, p. 514/515)