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Autoritarismo e Autoridade
Há, no mundo moderno, um interesse cada vez maior
pelas questões geradas pela violência, pela exclusão
social e pelo desrespeito ao espaço público. Também
na escola esse é um tema central, que preocupa professores e educadores
em geral. Fala-se muito que esses problemas estariam ligados a uma ‘crise
de autoridade’ na sociedade contemporânea. E, frequentemente,
vemos, aqui e ali, alguém afirmar que a solução para
esse quadro estaria na existência de um poder mais ‘autoritário’.
É necessário discutir profundamente esse tema que atinge
a todos. Mas é preciso sempre lembrar: autoridade não pode
ser confundida com autoritarismo. Em nome dessa confusão, muitos
erros foram e continuam a ser cometidos.
A Europa, depois da Primeira Guerra Mundial, assistiu a um período
de grandes conflitos. Os valores liberais (liberdade individual, política,
religiosa, econômica) começaram a ser colocados em xeque,
devido à impossibilidade dos governos fazerem frente às
crises econômicas e sociais. O enorme desemprego, a miséria
e a desesperança 'minaram' as conquistas democráticas que
a sociedade vinha conseguindo.
O nascimento do nazi-fascismo, que tanto se refere à doutrina da
Itália fascista como à da Alemanha nazista, simbolizaram
práticas políticas comprometidas com um regime autoritário,
“símbolo da unidade, da força e da justiça”,
segundo Benito Mussolini, ditador italiano, fundador do Partido Fascista.
Na verdade, o Estado nazi-fascista é a formação de
um tipo de Estado autoritário que surge de uma sociedade em crise,
na qual a instabilidade aparece sempre como marca.
Hoje, setenta anos depois, pode-se identificar na raiz do Estado autoritário
fascista e nacional-socialista, os principais componentes de uma ideologia
anti-democrática e percebe-se como o discurso do Estado centralizador
levou o povo a perder o sentido de Nação e a ver o Estado
como finalidade última. Mussolini dizia que “tudo está
no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”.
O resultado da reunião desses ingredientes foi a Segunda Guerra
Mundial, com todos os seus horrores: vinte milhões de mortos, a
Europa destruída e um mundo que se perguntava incrédulo
como havia sido possível chegar-se a isso.
As marcas do autoritarismo, que traumatizaram a sociedade humana, levaram
os homens a lutar por formas cada vez mais democráticas de distribuição
do poder. Contra as ideologias centralizadoras e autoritárias buscou-se
criar organizações internacionais legítimas que pudessem
garantir os direitos humanos e as liberdades civis, dentro de um Estado
de direito.
A tendência que se verificou no pós-guerra e que permanece
até hoje no ideário democrático, malgrado algumas
exceções, tem sido a busca, a construção de
uma Nação na qual os cidadãos elegem seus governantes
e participam da condução das questões nacionais através
dos seus representantes nos Congressos Nacionais.
A legitimidade, conferida pelo voto aos representantes do povo, confere-lhes
também autoridade.
Pode-se perceber, desde os anos finais do século XX, um interesse
crescente da sociedade como um todo, e da educação em particular,
por questões que passam pelos problemas causados pela violência,
pelo arbítrio, pela exclusão e que estão ligados,
sem dúvida, à questão da autoridade e da ética.
Incluir essa discussão nos projetos pedagógicos das escolas,
em qualquer nível, tem como objetivo a formação do
cidadão, o que passa por promover mudanças sociais que devem
vir acompanhadas de outras, destinadas a promover mudanças individuais.
Segundo Yves de La Taille, isso significa creditar à educação
a possibilidade de levar crianças e jovens a "construir valores,
a pautar seus comportamentos por regras, a situar-se além e aquém
de certos limites", mas a lutar, também, contra a violência,
que não se deve somente à falta de valores de algumas pessoas,
estando, antes, vinculada à pobreza, à injustiça,
ao arbítrio, à exclusão.
O papel da educação, seja aquela a cargo da família
ou da escola, tem um duplo objetivo: levar crianças e jovens a
transpor seus limites pessoais como ser humano, mas a partir de princípios
éticos, morais, existenciais que são “normativos”,
isto é, criados e impostos pela sociedade.
A colocação de limites faz parte do processo educativo e
a ausência dessa prática pode gerar uma crise de valores,
uma volta ao estágio selvagem em que vale a lei do mais forte.
São os pais e os professores, no caso específico da família
e da escola, aqueles investidos de autoridade para colocar limites e reforçarem
as tendências “pró-sociais” presentes em crianças
e jovens, como de resto em todos os seres humanos.
Assim, a função de educação, entre outras,
é a de levar os educandos a perceberem o que podem ou não
podem fazer, o que devem ou não devem fazer, numa dada situação.
A autoridade dos pais e dos professores é fundamental para balizar
os limites legítimos da consciência humana que devem ser
apropriados por todos, inclusive pensando-se no futuro, quando essas crianças
e jovens desempenharão o papel de educar outras crianças
e jovens e, talvez, o de decidir os destinos da sociedade.
Assim - quem sabe? - se estará possibilitando que possam chegar
à maturidade, podendo usufruir de uma liberdade consciente.
Autoritarismo e autoridade, entendidos nas duas dimensões aqui
colocadas, são dois conceitos bastante diferentes. O Autoritarismo
está ligado a arbítrio e a práticas anti-democráticas
e anti-sociais. Autoridade ao contrário, refere-se a uma prática
pró-social, que tem como objetivo levar o ser humano a perceber
as normas colocadas pela sociedade, a julgar sua legitimidade e a avançar
no sentido de tornar mas humana e mais democrática a vida em sociedade.
Carmen Maria Rangel
(Fundação Darcy Ribeiro)
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