Algumas Notas sobre
o Profissionalismo do Professor


Caracterizar o professor ou a professora como profissional, no exercício de seu ofício, é atingir uma área polêmica. Há que considerar alguns aspectos que não podem ser entendidos separadamente, mas sim nas inter e correlações que se tecem em um sistema complexo, como o é o sistema educacional.

A observação do desempenho dos sistemas educacionais leva à percepção das ambigüidades existentes na vida social, principalmente em países de periferia. De um lado tem-se uma administração central envolvida nas elucubrações teóricas, bem intencionadas muitas vezes, porém engessada pelos esquemas duros da burocracia. De outro, o rebatimento das iniciativas centrais, que esbarram nos “contra-poderes” das administrações regionais. Na ponta do fluxo está a escola, abandonada à sua própria sorte, proclamada como autônoma, mas afogada em papéis e formulários a preencher, a responder, isolada por uma miríade de projetos – prevenção ao consumo de drogas, discussão da delinqüência, tolerância racial, preservação do meio ambiente, educação para o trânsito, etc –, afeitos aos mais diferentes interesses de reformas sociais.

A escola pode parecer um território potencialmente mais criador, se afastado da burocracia e da uniformização. Mas, nos campos desregulamentados da educação, nem sempre tem florescido inexoravelmente a liberdade, a qualidade, a eficiência, a autonomia, a participação, a criatividade ou a desburocratização. Percebe-se que a retirada do Estado quase nunca produz mais liberdade e sim, na maioria das vezes, maior desigualdade, descontrole e descompromisso.

Nesta linha de pensamento, a escola pública está ameaçada de entrar na mesma lógica de mercado. Qual o "custo–benefício" ou qual o "retorno" do investimento praticado? Quem são os "clientes" e qual a "qualidade" do produto que deve ser oferecido? Para "clientes" pobres, uma escola feia, mal cuidada, suja, desprestigiada socialmente, que oferece um produto de má qualidade.

Porém, se acreditarmos no Estado democrático como aquele a que todos, sem discriminação, têm direito aos conhecimentos e aos valores sociais, como forma efetiva de inserção ativa e transformadora na sociedade, a experiência dos últimos cinqüenta anos nos informa que a escola pública tem que ser preservada como “direito do cidadão e dever do Estado”. Uma escola forte, que seja o local privilegiado de construção do diálogo na diversidade dos atores, da participação e da justiça. Para isso é preciso o investimento do poder público na qualidade social da escola pelos níveis de inovação que sejam propiciados, pela preservação do espaço escolar, pela valorização do/a professor/a, harmonizando liberdade e igualdade(1).

Nesta linha de pensamento, o/a professor/a, como profissional, tem um papel bem característico, que o/a distingue dos demais. Ele/a é responsável por conduzir o processo de construção do conhecimento das novas gerações e de fazê-las avançar no caminho de novas descobertas e de uma cidadania consciente que possa produzir uma sociedade mais democrática e mais humana. Precisa, por isso mesmo, de ser mais bem qualificado, sempre atualizado, consciente do seu importante papel social e de sua inserção na sociedade.

Como educador ou educadora, o/a professor/a dividiu e divide esta função com os pais, com as igrejas e hoje, mais do que nunca, com a mídia. Neste sentido, não é detentor de um saber exclusivo e fechado. Alguns, muitos, são servidores públicos e, como tais, estão submetidos a determinadas normas de conduta, previstas nos estatutos da categoria e nas normas das políticas educacionais em vigor. Muitas vezes, em função dos baixos salários, o/a professor/a acumula outro cargo de professor/a, numa escola privada, devendo adequar-se aos projetos da instituição. Raros são aqueles/as professores/as que atuam socialmente como profissionais liberais, embora submetidos às leis do mercado. E ainda, o desgaste social da profissão, para alguns, não estimula o/a professor/a buscar seu espaço de atualização, contribuindo para aumentar o desejo do abandono da atividade docente.

Mas, em qualquer uma dessas situações, como educador/a e como profissional, o/a professor/a tem a responsabilidade do ofício. Para assumi-la deve ser um profissional autônomo e esta autonomia só pode existir, verdadeiramente e cada vez mais, se o/a professor/a estiver aberto a ampliar e renovar continuamente os conhecimentos científico e pedagógico necessário. Há que reconhecer a pertinência da avaliação do Estado – arrecadador e responsável pela distribuição dos recursos públicos – no que se refere à prática pedagógica em sua mais ampla concepção: alto nível de desenvolvimento acadêmico e construção do sentido de respeito, de justiça e do diálogo. A experiência nos diz que a escola pública, dever do Estado, em regimes democráticos é, sem dúvida, o espaço privilegiado para as inovações, oferecendo maior autonomia para os professores.

Em 1985, assim escreveu Darcy Ribeiro em forma coloquial:

O nosso Material de Apoio, ou outro a que
tenha acesso pode ajudá-lo muito nisso
[isto é, no trabalho docente do professor],
mas o fundamental é compreender a realidade concreta
que você tem à sua frente, que só você pode conhecer
e enfrentar, fazendo face aos riscos, que sempre surgem,
de espontaneísmo, de dirigismo e de improvisação.

(Ribeiro: 1985, p. 5 )#

(1) - Ver Sacristán, Poderes instáveis em educação. Porto alegre. Artmed, 1999.

Laurinda Miranda Barbosa
(Fundação Darcy Ribeiro)